O festivo e vitorioso futebol de mesa paranaense, que nos últimos anos acostumou-se a ter seu nome projetado com grande destaque como o mais vitorioso do Brasil amanheceu triste esta sexta-feira, 19 de fevereiro. Faleceu em Londrina um dos mais queridos amigos e incentivadores do nosso esporte, José Luiz Negreti. Seu corpo será velado na capela da ACESF e o sepultamento será às 15:30h.
Poderia nesse momento de tristeza e perda elencar os inúmeros feitos que fazem de sua adorável figura um dos pilares dessa modalidade no Paraná. É possível afirmar, sem chance alguma de incorrer em equívoco, que sem José Luiz Negreti, ou simplesmente Zé Luiz como o chamávamos, o futebol de mesa de Londrina não seria o que é hoje.
Mas não. A falta das palavras para homenagear com a grandeza do sentimento de luto que nos envolve, nos faz apelar para um poema do grande escritor Carlos Drummond de Andrade:
RESÍDUO
“De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço - vazio - de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
(...)
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
(...) e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.”
Bem, se de tudo fica um pouco, que fique em nós a marca deixada por este grande amigo. A marca do exemplo, da conduta, do carisma e sobretudo de amor por este esporte que move e une a todos nós. Que guardemos esse exemplo, e que em nossa retina fique a imagem do parceiro que mesmo diante da dor e da limitação física esteve ao nosso lado em etapas e treinos no Grêmio Londrinense até poucos dias atrás, sorrindo, e comemorando gols.
À família, os mais sinceros sentimentos de todos os amigos e admiradores da Liga União.
por Jeferson Carvalho